Embora alguns possam dizer sobre a forma e o conteúdo um tanto impertinentes desse modesto escrito; não sou de direita, principalmente dessa direita recém-saída do armário, jovem e engraçadinha, que ideologicamente afirma combater ideologias. Também não sou comunista ou esquerdista, procuro não me aparelhar de nenhum lado, pois várias vezes, pude perceber, nas idéias e nas atitudes, como os "opostos se encontram nos extremos da ferradura". Não tenho partido, e muitas vezes até sou injusto com pessoas que militam em partidos, por puro preconceito, ou desconfiança mesmo. E também não sou especialista em meio ambiente ou preservação das florestas, mas ao que parece, isso não importa muito para opinar sobre o novo código florestal brasileiro. O que se tem ouvido seguidas vezes é que o relator dessa matéria, o deputado da “esquerda” brasileira, Aldo Rebelo, ignora totalmente as considerações e ponderações oferecidas a ele por especialistas, cientistas e estudiosos. Por vezes vasa algum conteúdo dessa polêmica matéria, que nos assusta.
O foco da discussão se concentra na área de proteção mínima, anistia a desmatadores e a proteção das margens dos rios. Pois bem, outro dia, numa notícia sobre o caso descubro que há a proposta de retirar os manguezais da classificação de “área de proteção”. Tudo bem, eu não sou especialista, nem o Aldo Rebelo, apesar de ser do PCdoB, é comunista. E hoje em dia, nessa confusão que está a política brasileira, onde não se sabe mais quem é de direita ou esquerda, ou se isso ainda existe, o que se pode inferir dessas incertezas é que o Sr. Aldo Rebelo não está nem aí para a causa do “povo”, nem mesmo da maioria da população, como prega a democracia. Nesse aspecto, talvez ele se assemelhe mais aos comunistas tradicionais, que ninguém quer ver, mas todo mundo pode perceber, sempre tiveram uma quedinha por decisões autoritárias e personalistas. Ignora os cientistas e ignora a população que se mostra contra o “seu” código; ignora uma enquete feita pelo site da Câmara na semana de votação do “seu” código, onde se expressou, em mais um meio, a esmagadora rejeição ao “seu” código.
Me espantou ainda uma fala do velho comunista, a um programa de entrevistas na TV Bandeirantes, onde afirma que não podemos nos sobrepor aos direitos de pessoas que são proprietárias dessas terras a gerações, “pelo menos trezentos anos”, como ele colocou. Peraí. Como assim? É isso mesmo que ele disse? Provavelmente ele diria que não, mas eu ouvi Sr. Aldo Rebelo. Ora! Mas o que é isso, como pode o deputado do partido comunista se colocar assim tão despojadamente em defesa das oligarquias latifundiárias??? Fica claro aí pra quem é essa lei que ele defende.
A partir daí podemos ter idéia também do que o presidente da “nossa” Câmara dos Deputados pode considerar a respeito de questões como a reforma agrária, a violência contra os ambientalistas no Pará, a construção da Hidrelétrica de Belo Monte (que da mesma forma que o tal código é rejeitada pela maioria da comunidade científica, e mais ainda, contestada pelo Legislativo e organismo internacionais de defesa do meio ambiente) ou ainda, a demarcação de terras indígenas. Tudo isso a beira de 2012, que se não for o fim do mundo, vai ser o ano de um evento que a essa altura chega a ser irônico, o “Rio + 20”, onde, vinte anos depois da ECO 92, vamos fazer uma avaliação e um balanço das políticas ambientais.
No fim das contas, o que me parece é que esses que chegaram ao poder, os revolucionários dos anos 60-70 ainda estão lá! Ainda pensam como stalinistas autoritários, ainda se consideram uma vanguarda que vai fazer o que é melhor para a felicidade do povo, que, alienado não sabe o que é melhor para si próprio, e ainda estão na mesma mentalidade do regime que combateram, o desenvolvimentismo a tudo custo, tentando imitar os países do “primeiro mundo”.
Espero que nada disso dê certo, nem o que é feito com as ruins ou, no caso do Sr. Aldo Rebelo, com as “boas” intenções (ele afirma, veja só, pensar, sobretudo na Agricultura Familiar). Espero que o Brasil continue navegando torto, errando o caminho, se atrasando e praticando sua melhor característica, que a muito vem o salvando de todas as boas e ruins intenções para ele, o de não se adaptar. Até, pelo menos, encontrarmos os nossos meios, longe dos modelos de desenvolvimento estrangeiros. Se até lá, claro, não tivermos destruído o nosso principal recurso, talvez a alma motriz de uma mudança realmente autêntica: nossas populações tradicionais, os que dependem da terra, dos rios e das florestas. Sistematicamente mortos por fome, descaso, destruição dos modos de vida e emboscadas. Quando o último extrativista de castanha morrer, o Sr. Aldo estará brindando com os madeireiros e latifundiários, e o Brasil pode começar a dar certo e finalmente, vislumbrar o progresso desenvolvimentista. Sonho comum dos militares e dos comunistas...