Em um bate papo descontraído com Tica Moreno tive a oportunidade de conhecer sua trajetória na luta feminista e clarear ideias sobre o que seria essa luta, seus fundamentos e quais suas bandeiras. Confira!
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| Tica Moreno |
Tica Moreno, 28 anos,feminista, militante da Marcha Mundial das Mulheres, SOF (Sempre viva organização feminista) que é a secretaria executiva da Marcha no Brasil.
Tica entrou na universidade em 2002 formando raízes militantes ao participar do movimento estudantil. Em 2003 com o encontro nacional dos estudantes de ciências sociais entrou em contato com outras meninas que já eram militantes do feminismo. No mesmo evento presenciou manifestos machistas, por parte dos meninos que participavam, e discussões feministas, por parte das militantes presentes, que apontaram o machismo que ela nunca antes havia visto com tais olhos.
“Várias coisas que eu achava às vezes que era só comigo, só da relação do meu pai comigo, eu vi que não, que várias meninas sofriam a mesma coisa, coisas que vai se percebendo ao longo da vida. Por que o jeito que eu me visto é o que vai me dar respeito ou não e não o que eu penso ou o que eu falo?”
A partir desse encontro, voltando à universidade, onde tinha um grupo de várias meninas que era do movimento estudantil, começaram a colocar o assunto em debate (se consideravam que o machismo estava presente em suas vidas ou não, como estava, se era importante o combate e como) criando um coletivo feminista dentro do movimento estudantil que gerou contato com outras meninas já feministas, de fora da universidade. Foi quando obteve contato com a Marcha Mundial das Mulheres.
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| Simbolo da MMM |
“A Marcha é um movimento bem horizontal, tem o comitê estadual em vários estados e uma coordenação nacional de representação. A partir do momento que você entra na marcha, você vira uma militante como todas que participam, tem um espaço muito grande que te oferece uma capacidade de pensar junto com as outras. Cada uma contribui a partir do que sabe fazer. (...) Uma das coisas da Marcha é que não tem uma referencia, têm várias referencias. A marcha junta desde meninas da cidade a mulheres trabalhadoras rurais, dos bairros, da periferia de SP... Junta todas nessa ideia de que o feminismo é pra gente uma luta que aponta pra uma coisa comum.”
Pergunto a Tica se a luta feminista é a busca por igualdade ou pela liderança:
“Nunca conheci nenhum coletivo feminista que tivesse essa coisa de querer dominar os homens, têm na história do feminismo alguns coletivos que falam do mundo para as mulheres, o que não teve muita repercussão porque não faz muito sentido.
O que se busca no feminismo é uma sociedade de homens e mulheres que tenha um grau de igualdade, que a gente não seja discriminada porque a gente é mulher, que a gente não sofra violência por que a gente é mulher, mas que a gente seja tão respeitada quanto os homens nessa sociedade. Às vezes vem essa ideia de que queremos dominar os homens, mas isso é uma espécie de pré-conceito com o feminismo. (...)
A gente quer ter uma boa relação com os homens, mas não queremos que eles sejam agressores, machistas... Queremos construir um mundo com eles, só que por enquanto está difícil. Eles tem que aprender que tem coisas que fazem que não podem fazer.”
Há muito debate em cima da diferença biológica entre homens e mulheres e Tica aponta que o feminismo não nega essa diferença, mas vê problema na desigualdade social que é construída a partir dessa diferença.
“Essa coisa da mulher ser frágil, emotiva... Não tem problema ser emotiva, porque isso é desqualificado em uma sociedade?”
Quando o assunto é espaço da mulher no campo de trabalho, a crítica é levantada a partir do julgamento que é feito pelos homens, de que as mulheres não seriam capazes ou fortes o bastante pra aguentar cargos que pedem mais do profissional, em questões racionais ou físicas.
“Quem disse que as mulheres não podem ser assim também? (...) Uma das coisas que a gente acredita no feminismo é que temos que ter as condições de igualdade para poder ser o que quisermos ser. Condições que as mulheres como um todo não têm.”
Uma das coisas do feminismo é a conscientização própria e coletiva que é gerada por suas práticas, um processo de percepção e mudança. Um sentimento de responsabilidade com toda mulher, não apenas as que já estão organizadas, mas a busca de mudança também para mulheres que nunca ouviram falar sobre feminismo.
“Depois que você começa a participar das coisas do feminismo é muito difícil fazer coisas sem pensar:
’Nossa como eu estou sendo conivente com o machismo’. Não basta que uma ou outra mude esse comportamento, é uma coisa que atinge a todas as mulheres então a saída também tem que ser por e para todas as mulheres. Nosso feminismo é pra todas. Pras trabalhadoras domésticas que estão sem direito nenhum, pras mulheres que sofrem violência que nunca souberam que isso tem a ver com machismo porque as mães e a vó também sofreram violência.”
“Nosso horizonte é a igualdade, mas pra gente conseguir a igualdade vamos brigar muito com eles, porque eles também têm que sair do lugar deles de dominadores.”
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| Marcha Mundial das Mulheres |
Um ponto do feminismo é a distinção que não é feita desde sua primeira onda até a modernidade, é o julgamento de pensar que as mulheres já conseguiram seu espaço no mundo e nunca se satisfazem. A falta de informação sobre a realidade atual e as bandeiras feministas.
“Têm coisas da essência que permanecem válidas, porque ainda existe o machismo e ele se expressa de várias formas.”
“O assunto do direito das mulheres ao voto, a essência dele é a mesma coisa quando a gente fala hoje que tem que ter mais participação das mulheres na política. Ainda tem a exclusão das mulheres na política. Claro que agora a gente já vota, já temos uma presidenta, mas temos apenas 10% no legislativo, tem alguma coisa que exclui aí as mulheres. Na divisão sexual do trabalho, essa coisa de as mulheres serem as principais responsáveis pelo cuidado dos filhos, pela casa...Isso faz com que tenhamos em média 20 horas a menos que os homens para desenvolver outras habilidades.”
Peço pra Tica colocar as diferenças do feminismo moderno e daquele que começou antes da época da ditadura e ela menciona a forma de expressar a luta feminista hoje em dia. A irreverência, a significação das coisas em relação a como o machismo atua. Usa como exemplo a mercantilização do corpo e da vida das mulheres. A exposição corporal em propagandas e uma imposição de padrões estéticos e comportamentais.
“A gente vê como isso é presente na nossa vida, pra resolver como responder a isso. Fazemos, por exemplo, oficina de pichação crítica em cartazes de cerveja. Isso é uma coisa que faz sentido pra gente fazer, é uma forma de expressar o feminismo que talvez não fosse o das mulheres da década de 60. (...)”.
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| "A queima dos sutiãs." |
Tica cita como simbolismo de imposição com relação ao corpo da mulher o movimento onde as mulheres queimaram seus sutiãs e tudo que era prepotente a elas. Mostra que sempre foi uma luta pra romper com tudo que oprime a mulher. E comenta os movimentos presentes na marcha, como a batucada, as musicas, mulheres que cospem fogo...
“Uma manifestação feminista com 5.000 mulheres, na frente tem uma batucada e de repente sai umas meninas cuspindo fogo. Isso é um sinal de poder das mulheres. Não do poder impositivo, mas de poder do tipo ‘eu posso’. Eu posso cuspir fogo, eu posso batucar, eu posso sair na rua e dizer como quero viver.”
Um ponto polêmico dentro do assunto feminista é a homossexualidade, a forma de julgarem o movimento como um movimento gay. Pra Tica isso não passa de preconceito com os gays e com o movimento feminista, uma forma que buscam para desqualificar suas lutas. Expõe a necessidade de debates sexuais e questiona o mundo do padrão heterossexual.
“A gente defende no feminismo uma liberdade sexual, tanto para as lésbicas e héteros. (...) Achamos que as mulheres têm o direito de ter uma vida sexual ativa e prazerosa. (...) No movimento feminista tem muitas lésbicas, mas tem também muitas héteros. Pra gente é normal, é a liberdade de escolha de cada uma.”Completa comentando que muitas vezes são julgadas de ‘mal amadas’ também.
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| Simbolo Feminista |
Muita coisa pode ser abordada dentro do assunto, Tica mostra pra gente que o feminismo não tem nada a ver com o objetivo de acabar com os homens, sendo simplesmente um coletivo de mulheres que querem uma sociedade com liberdade e igualdade para todas. E convida todas as mulheres a entrarem nessa busca.
“Toda mulher pode ser feminista, por conta própria e por coletividade, hoje, amanhã, todos os dias. Se o papel da mulher hoje é visto de maneira diferente na sociedade é graças ao feminismo e suas lutas por espaço e possibilidades. O feminismo é útil e ele ainda não acabou porque ainda existe machismo.” Tica Moreno
Tica Blog: http://www.roupasnovaral.wordpress.com
Para contato, maiores informações e novidades sobre a luta feminista sigam a Tica no twitter: @ticamoreno .














